Janeiro é uma época esquisita para o cinema. No começo do mês, e do ano, algumas produções novas, mas muitas ainda são as estreias mais esperadas em dezembro. Mais para o final, começam a aparecer os filmes mais novos que concorrem ao Oscar e a outras premiações.
Este ano, eles fazem uma aparição bastante atrasada - mas todos estrearão antes do dia 24 de fevereiro. Indomável Sonhadora entrará apenas dois dias antes, mas mesmo assim acho que chegarei no domingo do Oscar com todos os indicados a melhor filmes já assistidos.
Amour é assim. Mas dele eu posso dizer que gostei, e muito. O ritmo da vida - a dois, na velhice, na incerteza, no excruciante peso que é viver - é incrivelmente palpável e ao mesmo tempo poético. A delicadeza emociona. A proximidade dói. E a percepção de que alguns cineastas conseguem ir além de qualquer concepção simples de genialidade, com seu olhar detalhado e cuidadoso com a vida, me confirmam como vê-la e percebê-la no cinema está muito longe da fuga da realidade que se costuma relacionar com as produções cinematográficas.
A O Hobbit, na versão HFR, eu cheguei pela quinta vez, antes que ele saísse de cartaz. Thooooooooorin!
Numa sessão dupla, roubada numa visita relâmpago da minha sis querida a Brasília, fui a dois filmes que queria muito ver, mas tinha certa preguiça. Em Paris-Manhattan (Sophie Lellouche, França, 2012), a protagonista pensa sobre a vida com a ajuda de Woody Allen e seus filmes. Posiciona-se na vida com o cinema - onde eu já vi isso??? E a sua inadequação por ver a vida desa forma? Totalmente reconhecível.
Farmacêutica, Alice receita DVDs aos seus clientes - e consegue ajudá-los assim. Muito fofo, uma delícia de ver, com a presença sem exageros de Woody Allen. Over foi apenas a cena final - detesto aquela dança de amantes felizes, acho uma cafonice, como aconteceu em O Amor não Tira Férias (de verdade, aquela cafonice estragou o final). Totalmente desnecessário.
Take This Waltz (Entre o Amor e a Paixão. Sarah Polley, Canadá/Espanha/Japão, 2011) chegou aqui com bastante atraso e me trouxe sentimentos bastante contraditórios. Apesar de ter feito um imenso sentido para mim e me tocado fortemente, parece a defesa de uma tese. Esse é um dos maiores problemas com algumas histórias... e um sério obstáculo na construção de uma narrativa. Eu concordo com a tese defendida. Na verdade, eu a assumo de coração como forma de vida. Mas acho que uma mão mais leve para contá-la teria tornado o filme muito mais do que ele acabou sendo. E que eu gostaria que fosse.
A Viagem (Cloud Atlas. Tom Tikwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski, Alemanha/US/Hong Kong/Singapura, 2012) também bastante esperado, chegou com críticas indignadas. O filme é confuso, bla, bla bla. Aquela história de sempre. Tenho a impressão que se exigiu demais desta nova produção dos irmãos (siblings, agora) Wachowski. Se eles não fossem os criadores de Matrix, talvez a expectativa fosse outra. Para mim, a edição foi sublime, criando um sentido maior com as diferentes histórias, em diferentes épocas.
Nick Hornby, em 31 Canções, diz como nós devemos nos permitir ir embora. Não há necessidade do apego, mesmo que saiamos de algo que admiramos muito - como ir ao pub tomar uma cerveja e jogar uma partida de sinuca durante um solo gigantesco do Led Zeppelin, o exemplo nada desprezível que ele traz para ilustrar sua afirmação.
Lincoln será o provável ganhador do Oscar este ano (eu torço muito para que não), então como eu, que assisto a essa maldita premiação há mais de 30 anos, não iria vê-lo até o final? Não vi, e que alívio. A produção é primorosa, tudo bem. Daniel Day Lewis está incrível. Ótimo. O detalhe da pesquisa história é um deslumbre para a crítica. Ok. Mas a transcrição de fatos que desconheço em minúcias não fez o menos sentido para mim. Foi realmente outra língua. O filme é baseado no livro de Doris Kearns Goodwin, Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln, que me interessou muito e ressalta a estratégia de Lincoln para a abolição da escravatura nos EUA, no fim da famigerada Guerra Civil. Tudo muito nobre, mas que consegui vislumbrar com mais clareza em Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros (mesmo considerando-o bastante inconsistente e apressado), do que na proposta de fidelidade factual extrema - como se isso fosse possível ou necessário - trazida por Spielberg.
A impressão que tive em Lincoln - que é realmente somente isso, uma impressão - é que a ele chega, nos US, no início do segundo mandato do Presidente Obama como uma mensagem à oposição. A chama da vela que se mantém acesa, no leito de morte de Abraham Lincoln, não traz uma mensagem muito sutil. Com todo o respeito deste universo, good for you, eu diria. Para mim, blah.
A impressão que tive em Lincoln - que é realmente somente isso, uma impressão - é que a ele chega, nos US, no início do segundo mandato do Presidente Obama como uma mensagem à oposição. A chama da vela que se mantém acesa, no leito de morte de Abraham Lincoln, não traz uma mensagem muito sutil. Com todo o respeito deste universo, good for you, eu diria. Para mim, blah.
Ufa.
Um vídeo aos moldes do In Memorian,
com a trilha retirada de A viagem, homenageando os esnobados do Oscar 2013.
PS: No primeiro dia do ano, em casa, assisti a Manhattan, de Woody Allen (US, 1979). Que eu não o tivesse assistido ainda, é um depoimento contrário e contundente (sem exageros) a qualquer um que diga que eu entendo muito de cinema. Sei que chegamos aos filmes na hora certa, eu realmente sinto assim. Mas eu amei tanto Manhattan, achei-o de uma genialidade tão bela, que realmente me ressenti de não tê-lo visto antes. Eu gostava muito de Woody Allen (Neblina e Sombras, não tão famoso, era o meu preferido até então), mas agora esse gostar subiu algumas oitavas. Assim, Paris-Manhattan e o amor de Alice pelo cineasta fizeram muito sentido para mim.
E outro filme me levou a ele: Medianeras, meu filme querido: Martín e Mariana, que não se conhecem, , mas se emocionam e sofrem com a mesma cena, no filme que assistem na TV ao mesmo tempo, em apartamentos separados. Love, love, love.
O trecho a seguir é o final do filme... eu o trouxe por conter a cena que aparece em Medianeras. Mas é o final... se você não tiver visto o filme, vale esperar um pouquinho :)
O trecho a seguir é o final do filme... eu o trouxe por conter a cena que aparece em Medianeras. Mas é o final... se você não tiver visto o filme, vale esperar um pouquinho :)